Digitalização e equidade no ensino

Brasil tem o desafio de criar uma cultura que valorize o ensino público e professores

Editorial Estadão

A última análise da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) do Programa de Avaliação Internacional de Estudantes (Pisa) foi realizada com dados de 2018, antes, portanto, da covid-19. Mas o estudo Políticas Efetivas, Escolas Bem-sucedidas tem especial interesse por enfatizar dois desafios agravados com a pandemia: a digitalização e a equidade.

“A leitura não é mais predominantemente uma questão de extrair informação; trata-se de construir o conhecimento, pensar criticamente e fazer juízos bem fundamentados”, disse o secretário-geral da OCDE, Angel Gurría. “Se a Inteligência Artificial destruirá ou criará mais empregos dependerá muito se nossa imaginação, consciência e senso de responsabilidade nos ajudarão a aproveitar a tecnologia”, observou Gurría. “Para quem tem os conhecimentos e habilidades corretas, a digitalização e a globalização têm sido libertadoras e excitantes; para os insuficientemente preparados, estas tendências podem significar um trabalho vulnerável e inseguro, e uma vida com poucas perspectivas.”

Tanto maior é o desafio para o Brasil, recorrentemente citado como exemplo de desigualdade na distribuição de recursos, notadamente os digitais. Um grande avanço foi o robustecimento do Fundeb. O financiamento, contudo, é condição necessária, mas nem de longe suficiente. A boa alocação de recursos é decisiva, e muitos diferenciais têm pouca ou nenhuma relação com a quantidade de dinheiro, mas com a qualidade da gestão. Com efeito, o desenvolvimento econômico dos países responde por apenas 28% da variação no rendimento escolar.

Se nos países da OCDE há em média um computador por aluno de 15 anos, no Brasil há um para cada quatro alunos. Mas não se trata apenas de prover mais computadores. Na verdade, exclusivamente por esse critério, os estudantes de escolas com mais computadores per capita tiveram desempenho menor do que naquelas onde há menos computadores. Claramente, o diferencial não é a quantidade, mas a qualidade dos dispositivos digitais.

No Brasil, entre as escolas economicamente abastadas, 68% dos alunos têm acesso a dispositivos qualificados, enquanto nas outras escolas são só 10%. Os dados mostram que uma banda larga potente e uma boa plataforma online são fatores imensamente mais relevantes do que a proporção de computadores portáteis ou a estrutura física das escolas.

Mas hoje, como sempre, o recurso mais valioso é a qualidade dos professores. “Os alunos de famílias pobres têm em geral uma única chance na vida, e é um grande professor numa boa escola”, advertiu Gurría. “Se perderem este barco, as oportunidades subsequentes de ensino tenderão a reforçar, antes que mitigar, as diferenças iniciais nos rendimentos escolares.”

Em síntese, o crucial é que os professores aprendam a utilizar a tecnologia para aprimorar o ensino. Por exemplo, os sistemas escolares nos quais há maior proporção de escolas com seu próprio protocolo de uso de dispositivos digitais apresentam desempenho superior em leitura, matemática e ciências. Além disso, em países de alto desempenho, mais escolas têm programas específicos para fomentar nos alunos um comportamento responsável na internet.

As evidências não deixam dúvida: a boa educação é a mola mestra de um círculo socioeconômico-cultural virtuoso – assim como a má educação resulta num círculo vicioso. Nos países de alto desempenho, as disparidades na distribuição de recursos entre escolas de alta e de baixa renda são bem menores. Independentemente de qual é o ovo e a galinha, o fato é que quanto mais pobre um país, mais desigual é o seu ensino e vice-versa.

Como disse Gurría, “conquistar maior equidade na educação não é só um imperativo de justiça social, mas também um modo de usar recursos mais eficazmente, aumentar o suprimento de habilidades para abastecer o crescimento econômico e promover a coesão social”. O Brasil enfrenta o grande desafio da alocação e da otimização de recursos. Mas superá-lo depende de vencer outro ainda maior: a criação de uma cultura que valorize o ensino público e seus professores.

Foto: Rubens Cavallari

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