Simone Tebet começa a ganhar força na terceira via

Presidenciável do MDB, a senadora sul-mato-grossense Simone Tebet até hoje não tem sua candidatura levada a sério por uma parte importante do seu próprio partido. Para os demais postulantes a comandar a terceira via na corrida eleitoral deste ano, seria apenas a “vice perfeita”, ou seja, como única mulher no páreo, pode ser valiosa na composição da chapa, mas não teria cacife político e projeção nacional suficientes para se tornar a protagonista do bloco, apesar da atuação destacada na CPI da Pandemia do Senado, no ano passado. De uns tempos para cá, no entanto, desde que sua legenda engatou negociações mais produtivas para a composição de uma aliança com o União Brasil — que é o maior partido na Câmara, mas não tem um candidato forte ao Palácio do Planalto —, ela finalmente começou a ser encarada como uma opção com verdadeiro potencial de crescimento. Com a ajuda de uma estrutura de campanha sólida e de uma agenda pública para se apresentar ao país, Simone trabalha firme com o objetivo de atrair apoios dos caciques para se viabilizar.

A movimentação da senadora tem sido intensa. Desde janeiro, já concedeu 38 entrevistas para rádios do interior do país, podcasts e canais on-­line de influenciadores regionais para apresentar uma agenda de austeridade econômica e combate às desigualdades sociais. O corpo a corpo deve ser intensificado após o Carnaval. Embora já tenha ido, por exemplo, à favela de Paraisópolis, em São Paulo, e a cidades do interior do estado e de sua terra natal, Simone ainda planeja viagens para o Rio de Janeiro e o Paraná, nas duas próximas semanas, e um tour pelo Norte e Nordeste na sequência. O mote das viagens é conhecer “o Brasil que deu certo”, visitando projetos de desenvolvimento que poderiam ser expandidos em seu eventual governo, de forma a construir pontes com lideranças locais para superar a falta de cabos eleitorais que sobram aos dois líderes das pesquisas, Lula e Bolsonaro.

Paralelamente, em busca da construção de uma ideia de gestora competente, Simone fechou acordo com a economista Elena Landau para chefiar seu programa econômico, sob coordenação do ex-governador gaúcho Germano Rigotto, e contratou o marqueteiro Felipe Soutello (profissional de São Paulo que fez a campanha vencedora de Bruno Covas ao comando da cidade em 2020). Simone vem mantendo ainda canais de diálogo com os demais presidenciáveis da terceira via, como Sergio Moro (Podemos) e João Doria (PSDB), em um jogo de aproximação que ainda considera que um poderá ser o vice de outro. Nessas conversas, a definição do titular da candidatura em geral é associada à posição nas pesquisas eleitorais. Doria tem 3% das intenções, o que na prática o coloca tecnicamente empatado com Simone, que tem 1%, segundo o Índice 2022, agregador de pesquisas de VEJA. Os contatos com o governador paulista costumam ter a participação do presidente do MDB, Baleia Rossi. Político próximo a Doria, ele também é um companheiro frequente do périplo da senadora junto aos líderes das outras siglas de centro.

As enormes diferenças entre as legendas da terceira via, as dificuldades regionais e as ambições de seus presidenciáveis pareciam tornar improvável algum acordo por uma candidatura única ao Palácio do Planalto. A despeito das dificuldades, porém, as conversas têm avançado e hoje a possibilidade de um acerto é vista com mais otimismo. O primeiro passo seria o casamento entre MDB e União Brasil, que é dado como certo. No último dia 22, o presidente do União, Luciano Bivar, se reuniu em Brasília com Baleia Rossi, o senador Marcelo Castro (MDB-PI) e o deputado Isnaldo Bulhões (MDB-AL) para tratar da aliança em torno de uma candidatura da terceira via. Passado o entusiasmo inicial pela formação de uma federação — união entre siglas que precisa durar pelo menos quatro anos e se dar em todos os níveis de governo —, a ideia deu lugar a uma coligação entre essas siglas. Em público, lideranças dos dois partidos adotam um tom diplomático ao comentar a possível inclusão do PSDB.

Em entrevista a VEJA na semana passada, Bivar foi enfático ao dizer que conta com os tucanos na construção de uma candidatura única. Mas nos bastidores a conversa é outra. A percepção é que Doria não está realmente disposto a abrir mão de sua candidatura, mesmo que continue patinando nas pesquisas. Nas palavras de um emedebista que acompanha as tratativas, “no campo das possibilidades, a chance de apoio a Doria é mínima”. Apesar desse tipo de descrença, o governador paulista declarou mais de uma vez que aceitaria abrir mão da liderança, embora continue trabalhando firme para reduzir a rejeição a seu nome e crescer com ativos que nenhum outro candidato de centro dispõe, como o reconhecido mérito para iniciar a vacinação contra a Covid-19 no país e a privilegiada situação econômica de São Paulo, estado que progride a um ritmo muito maior que o do Brasil sob a sua gestão. Doria conta ainda com o vice-governador, Rodrigo Garcia, seu candidato à sucessão estadual, que tem se mostrado um valioso articulador para aparar arestas junto a siglas da terceira via.

A despeito de Simone ter um currículo de realizações muito mais modesto que o do governador paulista, líderes do MDB e do União têm demonstrado um certo encantamento por ela neste momento. Segundo esses entusiastas, a senadora é ainda pouco conhecida e tem baixa rejeição — consequentemente, teria mais potencial para crescer, sobretudo porque poderá contar com o maior tempo de TV e recursos para campanha. Além disso, Simone ajudaria na estratégia de liberar candidatos em estados que desejam apoiar nomes rivais por questões regionais. Existem alas no MDB, principalmente no Nordeste, que desejam caminhar com Lula. Correligionários citam o senador Renan Calheiros (AL) como um dos exemplos desse grupo, para o qual seria indiferente a existência ou não de uma candidatura realmente competitiva na terceira via.

Antes de ingressar no Senado (está no primeiro mandato), Simone, de 52 anos, percorreu uma trajetória centrada no Mato Grosso do Sul, que incluiu a prefeitura de Três Lagoas (reduto de seu pai, o ex-­governador e ex-ministro de FHC Ramez Tebet, morto em 2006) e o vice-governo do estado. Apesar do protagonismo que obteve na CPI da Pandemia, pesa contra ela a falta de uma cesta de realizações mais robusta em cargos do Executivo. “Ao contrário de 2018, o eleitor deverá priorizar agora nomes mais tarimbados e capazes de tocar a máquina da administração pública”, aposta o cientista político José Álvaro Moisés, da Universidade de São Paulo. Uma certa inexperiência não impede que Simone continue sonhando alto, dentro de um cenário no qual o casamento de forças entre MDB, União Brasil e PSDB possa gerar um fato político novo capaz de finalmente impulsionar a estacionada terceira via.