Désirée Sessegolo: a artista curitibana que leva a arte em vidro para exposições internacionais

Em um galpão de Matinhos, no litoral do Paraná, fornos aquecem fragmentos de vidro que seriam descartados. Das altas temperaturas surgem peixes, aves, luminárias, esculturas e obras inspiradas na Mata Atlântica. Por trás desse trabalho está a artista vidreira e designer curitibana Désirée Sessegolo, nome reconhecido internacionalmente por sua contribuição à arte do vidro e que hoje dedica sua experiência à formação de novos artistas e à inclusão social por meio da Fundição Guará.

Nascida em Curitiba, Désirée acompanha há décadas o desenvolvimento da arte vidreira contemporânea no Brasil. Integrante do primeiro e mais antigo grupo de artistas vidreiros do país, criado na capital paranaense em 2008, ela construiu uma trajetória marcada pela pesquisa e pela inovação técnica. Ao longo dos anos, desenvolveu processos próprios de criação utilizando materiais acessíveis à realidade brasileira, o que contribuiu para ampliar o alcance da arte em vidro no país.

Seu trabalho já foi reconhecido por instituições como o Museu Alfredo Andersen, em Curitiba, a Casa João Turin, o Museo del Vidrio de Bogotá, na Colômbia, a International Biennale of Glass, na Bulgária, e a The Venice Glass Week, na Itália. Em mais de 15 anos dedicados à arte do vidro, participou de mais de 50 exposições e eventos nacionais e internacionais, consolidando-se como uma das principais referências brasileiras na área.

Hoje Désirée integra o portfólio de artistas globais do prestigiado Homo Faber Guide, chancelado pela Michelangelo Foundation em Genebra, suas obras integram acervos e coleções especializadas em diferentes países. O reconhecimento internacional é resultado de décadas de experimentação artística e do desenvolvimento de uma linguagem própria dentro da arte vidreira contemporânea.

A técnica que tornou Désirée conhecida internacionalmente vai além da vitrofusão tradicional. A artista é criadora do Vidro Celular, denominação de uma técnica exclusiva desenvolvida a partir de anos de pesquisa, que explora estruturas orgânicas e texturas únicas obtidas pelo comportamento do vidro submetido a altas temperaturas. O método tornou-se uma das marcas de sua produção artística e contribuiu para projetar seu trabalho em importantes mostras internacionais.

Embora a vitrofusão seja amplamente difundida em países com tradição vidreira, como Itália, Estados Unidos e Reino Unido, ainda permanece pouco explorada no Brasil. O trabalho desenvolvido por Désirée busca justamente ampliar esse conhecimento, demonstrando que resíduos de vidro podem ser transformados em obras de arte, peças de design, luminárias e objetos decorativos de alto valor cultural e ambiental.

Da carreira internacional ao impacto social
Após construir uma carreira consolidada, Désirée decidiu levar sua experiência para além das galerias e museus. A partir dessa proposta nasceu a Fundição Guará, iniciativa instalada em Matinhos que utiliza a arte vidreira como ferramenta de transformação social e ambiental.

O litoral paranaense possui forte potencial turístico e cultural. A proposta foi unir esses elementos em um único projeto: transformar vidro descartado em arte, gerar oportunidades de renda e promover capacitação profissional para populações em situação de vulnerabilidade.

O trabalho desenvolvido pela artista também dialoga com conceitos cada vez mais valorizados globalmente, como economia circular, sustentabilidade e ESG (Ambiental, Social e Governança). A iniciativa já recebeu o Selo SESI ODS 2025, reconhecimento concedido a projetos alinhados aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU.

O que é a Fundição Guará?
A Fundição Guará é um centro de transformação criativa de vidro que funciona como atelier e escola de arte vidreira em Matinhos. O projeto tem como objetivo promover inclusão social, formação profissional e economia criativa por meio da reciclagem artesanal de vidros planos e embalagens descartadas.

A iniciativa oferece um curso gratuito anual de vitrofusão, priorizando mulheres em situação de vulnerabilidade social, comunidades caiçaras, moradores da área rural e estudantes da rede pública. Além da capacitação, os participantes recebem apoio para permanência nas atividades e aprendem técnicas que podem ser transformadas em geração de renda.

Entre as metas do projeto está a retirada anual de duas toneladas de resíduos vítreos do meio ambiente, transformando esse material em obras de arte, peças decorativas e produtos de design inspirados na cultura e nos patrimônios naturais do litoral paranaense.

A Fundição Guará também prevê a produção de videoaulas, cartilhas técnicas acessíveis, conteúdos digitais e uma plataforma de comercialização das peças produzidas pelos alunos, ampliando o alcance do conhecimento e fortalecendo a economia criativa da região.

Mais do que ensinar uma técnica artística, o projeto busca demonstrar que resíduos podem se transformar em oportunidades, e que a arte pode ser um instrumento efetivo de desenvolvimento social, ambiental e econômico no litoral do Paraná.